Por que os jogadores alternam bons e maus momentos? A completa compreensão de
fenômenos complexos desta natureza está
além da capacidade de qualquer mente humana, mas ainda assim podemos identificar causas maiores, e de maior grau de ocorrência, no caso do futebol. Penso que vale a pena destacar, dentre essas causas, a
confiança.
A confiança, que de tempos em tempos surge nas bocas dos comentaristas da televisão e do rádio ("fulano de tal está sem confiança") não tem seu devido valor reconhecido, provavelmente pelo mau uso e pela banalização que sofreu com várias décadas de comentários ineptos de jornalistas que só fazem repetir chavões atrás de chavões (não todos e/ou nem sempre, é bom que se diga).
A confiança em si
O primeiro erro dos jornalistas é dar à confiança um peso negativo. "Fulano de tal está sem confiança", como se alguém o tivesse roubado a confiança, como se algum fator obscuro dos treinos ou da organização do clube, as vontades do treinador ou um tempo de afastamento por lesão tivessem removido a confiança natural do fulano. Mas esta visão está errada, porque a confiança não é natural. A confiança tem que ser adquirida e mantida. E isto depende de trabalho mental e aprendizado do jogador, ou de competências inatas cuja origem não podemos explicar. Assim como a pobreza é natural no homem, a falta de confiança é o estado natural do jogador. E ela não não brota do gramado nem tampouco pode ser injetada no futebolista pelo treinador. É
normal o jogador não ter confiança. A diferença do jogador que está sempre em boa fase para o que nunca está é a capacidade mental e a concentração que aquele tem e este não para manter a confiança por um bom tempo, quando ela vem.

O segundo erro é achar que a confiança é um fator psicológico, no estilo "fulano está sem confiança, porque está voltando de lesão" ou "porque brigou com a mulher", como se um fator extra-campo, ou uma preocupação, ou uma tristeza qualquer ficasse martelando na cabeça do jogador enquanto ele tenta chutar a bola e isso o tornasse pior. Não.
A confiança é um fator físico. Mas não no sentido de treinamento físico ou técnico, ou boa forma. Não, a confiança é um fator físico porque
o corpo pensa muito melhor do que a mente. Quando o jogador está confiante, ele deixa de se preocupar em acertar as jogadas, em mover o pé um milimetro a mais para esquerda ou para a direita. Ele apenas joga. A confiança está em reconhecer que
o corpo sabe o que fazer, e não interferir na sua ação com pensamentos demais.
É este o ensinamento do multi-famoso (e por isto também multi-mal-interpretado)
"Inner Game of Tennis", de
Timothy Gallwey -- que depois deu origem à série de livros
inner game e vários cursos e seções de auto-ajuda do mundo do
business, todas sob o nome da disciplina
coaching que, imagino eu, deve ser um grande conjunto de porcaria.
A confiança e as pretensões atleticanas de título
Chegando ao Campeonato Brasileiro: por que o Atlético ainda não foi decretado campeão brasileiro? Porque ainda pode perder, é claro. E, creio eu, se perder o terá feito por seus jogadores não terem conseguido manter a confiança por tempo suficiente. O time de 2009 foi tão espetacular porque tinha, no geral, confiança de sobra (veja
neste gol do Diego Tardelli, por exemplo, como ele não se preocupa nem um pouco com o que fazer com a bola, bem diferente, por exemplo
deste lance do Diego Souza, em que o nervosismo quase pôde ser filmado pela câmera).
Não temos como criar a confiança nos jogadores, e nem como mantê-las, mas podemos comemorar como uma vitória cada momento em que percebermos que essa confiança foi adquirida pelos que vestem a camisa do Atlético, porque cada vez que isto acontecer, o rolo compressor alvinegro ficará mais forte e suas chances de vitória aumentarão enormemente.
Como exemplo, fica a melhora de Bernard, que voltou a jogar como no fim de 2011, após
este jogo importante em que fez dois gols com a mesma aura tranqüila e despreocupada que víamos em Tardelli (principalmente o segundo, talvez o estado de confiança a que me refiro tenha sido alcançado em algum momento entre os dois gols).
Aos que não crêem em milagres, digo-lhes que cada vez que um jogador do Atlético atinge o estado de confiança que Tardelli tinha em 2009, e que Bernard, Leandro Donizete, Pierre e (talvez, quem sabe com
este lance) Danilinho têm agora, é um milagre que se realiza. Torçamos para que venham outros desses milagres, e que a equipe do Atlético esteja toda em seu nível máximo de confiança por toda a temporada.